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5.7.03

Angel Vianna
Escultora de ossos e músculos


Nome maior da expressão corporal no Brasil, Angel Vianna ensina seus alunos a criarem soluções para os limites do corpo, fazendo a 'máquina' pensar e esculpindo o movimento de boa parte dos bailarinos da dança contemporânea nacional.

Calça e camisa confortáveis, sandálias de couro, Angel Vianna – a perna direita puxando um pouco, culpa de um tombo que a fez ganhar dois pinos de metal – vence com facilidade a escadaria íngreme que a leva a uma das cinco salas de sua escola, no bairro de Botafogo, no Rio.

A aula de conscientização do movimento, única que atualmente a decana da expressão corporal no Brasil dá com regularidade, é essencialmente uma experiência de descoberta. "Não vai mais do que isso", diz a aluna de meia-idade, referindo-se à coluna que pára no meio do caminho, numa curva acentuada. "Mas é claro que vai", retruca a mestra, sentando-se à sua frente, pernas abertas, a sua própria coluna belamente ereta, mãos convincentes que esculpem o tronco reticente, fazendo-o perceber um outro caminho.

Parceria iniciada na década de 1940
Me encanta ver as pessoas crescerem, diz ela, numa afirmação que deve ser compreendida tanto no sentido literal quanto no figurado. Cresce-se, de verdade, quando as articulações, trabalhadas em suas aulas, começam a ganhar espaço, quando ossos e músculos vão assumindo seu lugar na elaborada cadeia que é o corpo humano, quando uma nova forma insinua-se num corpo mais expressivo – e aí, é tal o manancial de conhecimentos sobre si próprio que não tem mais jeito: é puro crescimento.

Para chegar a este trabalho que já rendeu tantos frutos – boa parte dos bailarinos dos grupos de dança contemporânea do Rio saiu das suas salas de aula – Angel cumpriu uma longa trajetória, de mais de cinco décadas. E, nesse ponto, é impossível dissociá-la de Klauss Vianna, amigo, marido e companheiro de trabalho, considerado o introdutor do conceito de expressão corporal no Brasil. Os dois se conheceram em Belo Horizonte, onde moravam, quando os pais de Angel (na verdade, Maria Angela Abras) a transferiram do Colégio Santa Maria, um tradicional internato de moças, para o Colégio Padre Machado. Klauss estudava lá, ambos tinham cerca de 14 anos e tornaram-se grandes amigos. Torciam o nariz para os namorados um do outro, ajudavam-se em momentos de crise e, quando Klauss resolveu estudar dança, Angel foi junto. Eles tinham acabado de assistir ao espetáculo do carioca Balé da Juventude, patrocinado pela UNE, que se apresentava na capital mineira. E, logo depois, o coreógrafo Carlos Leite, que fora a Belo Horizonte com a companhia, voltaria à cidade para dar aulas.

Estas aulas, iniciadas em meados da década de 1940, eram de balé clássico, mas incluíam também danças folclóricas e história da dança. Klauss foi rapidamente alçado ao posto de professor e, em 1948, ele e Angel passariam a fazer parte da companhia de Carlos Leite, o Ballet de Minas Gerais. Em casa, acobertada pela mãe Margarida, aquela atividade que levava Angel tanto para a rua à noite era "ginástica". Nicolau Elias, comerciante de origem libanesa, não admitia que a filha (a terceira de quatro irmãos) fizesse balé. E era uma ginástica mesmo o que Angel fazia para driblar o pai: de jogar sacolinha com sapatilhas pela janela a monitorar com precisão coreográfica horários de entrada e saída.

Tendência expressionista
Foi um momento mágico para mim. E olha que eu não era uma menina talentosa para a dança. O que eu fiz em dança foi realmente trabalhar, não tinha talento nem habilidade. Cheguei a solista, mas sempre com dificuldade. E dançava nas pontas porque tinha que dançar, mas não era o meu forte, conta Angel. Hoje sabe que aquilo era uma passagem e que ela, que nada tinha de romântica clássica, teria que esperar um pouco mais para mostrar sua faceta expressionista. Enquanto isso, estudava música e exercia o que considerava seu verdadeiro talento, a escultura, na Escola de Belas-Artes, numa época gloriosa: teve aulas de pintura com Guignard e de escultura com Franz Weissmann. Ali, na EBA, Angel aprendeu muito do que ensina hoje. Ela lembra, por exemplo, que perguntava a Weissmann: "Ô, professor, o que eu faço agora?" Ao que ele respondia: "Cria. Descobre."

Angel gosta de identificar triângulos em sua vida. A dança, a escultura e a música formam um deles, que resultou no seu trabalho corporal: "Da escultura, sinto que trouxe toda a percepção tátil, de como tocar. Da música, a percepção de ouvir. Da dança, toda a parte do fluxo do movimento e do espaço."

Mas isso ela só percebe hoje, quando olha para trás e vê o caminho percorrido. E, a respeito, conta um episódio interessante, cuja importância só observaria muito depois: antes de começar os estudos de dança e bem antes de pensar em cursar a Escola de Belas-Artes (onde acabaria se formando), ela soube de uma escultora belga, Jeanne Wilde, contratada pela polícia mineira para fazer as máscaras dos criminosos, retratos falados em três dimensões. Angel, atraída pela história, foi atrás dela e pediu para ter aulas. Era tudo muito claro, muito preciso. O crânio, as saliências dos ossos, foi um estudo acadêmico, conta, identificando uma característica que permaneceria em seus anos de estudante de artes: a necessidade de definir bem músculos, articulações. Em todos os salões de arte de que eu participava, faziam uma observação sobre o meu trabalho, dizendo que era acadêmico, porque eu fazia questão de detalhar o rosto. Isto mostra como eu já tinha esta necessidade de bisbilhotar o corpo.

Casal flexibilizou o balé clássico
O que nos faz voltar ao percurso da bailarina que se transformou na grande mestra de hoje. Antes, porém, é preciso contar que Angel casou-se com Klauss. Traições do dedo mindinho. Os dois, inseparáveis, iam visitar uma colega do balé, grávida, que corria o risco de perder a criança. Angel estava triste, e eles caminhavam lado a lado, por uma comprida ponte, até que os dedos mindinhos se esbarraram e engancharam-se um no outro. "Eu não tirei, ele também não", conta ela. "Andamos longos minutos assim, e só nos separamos quando chegamos na casa da amiga." A partir daquele dia, as saídas, já freqüentes, tornaram-se mais regulares, os amigos começaram a dizer que os dois namoravam. "Angel, a gente está namorando?", perguntou Klauss, meses depois. "E eu sei lá. Estamos?" Estavam. Casaram-se, depois de dez anos de amizade e após uma verdadeira batalha familiar na casa dos Abras – de família alemã, pobre e bailarino, Klauss era bem mais do que o pai de Angel julgava agüentar. Angel foi morar com Klauss, que já morava com a avó. E foi ela quem teve a idéia de juntar dois quartos, dos quatro da casa, para que dessem aulas de balé. Começou ali um trabalho de pesquisa incomum na época. Klauss e Angel não se contentavam em repetir o que tinham aprendido.

Queriam conhecer melhor o corpo, saber como cada movimento acontecia. Estudaram anatomia, cinesiologia, estudaram ioga com o professor grego George Kritikus, flexibilizaram o balé clássico: "Na nossa aula a coluna estava no lugar, mas não era rígida, as articulações se mexiam. Foi lindo, porque começamos a entender melhor o mecanismo corporal. Mas ainda não sabíamos como aplicar na aula de balé todo o conhecimento da parte óssea que estávamos adquirindo."

A dança livre de Rainer Vianna
A escola, inicialmente só de crianças, chegou a ter 600 alunos, tornando-se o embrião do Balé Klauss Vianna. Klauss criava coreografias baseadas em textos literários e poemas – como O caso do vestido, de Drummond – que Angel dançava. Ela chegou a integrar por pouco tempo o grupo de Nina Verchinina no Rio, mas mudou-se com Klauss para Salvador, onde durante dois anos ele deu aulas no curso de dança da Universidade Federal da Bahia, na época o único de nível superior do país. Foi um período de acúmulo de conhecimentos, em que o balé, pouco a pouco, cedia espaço para algo mais pessoal.

A mudança para o Rio, em 1965, determinou o novo rumo. Klauss, devido às suas peças meio dançadas, meio teatrais, foi convidado em 1967 para fazer coreografias e o trabalho corporal da "Ópera dos três vinténs", que José Renato dirigia. Angel colaborou com o marido e atuou como atriz (era uma das dançarinas do cabaré). Tinha que ser um trabalho muito preciso e ágil, para preparar, em 50 dias, 40 pessoas que não dançavam, lembra ela. A fama do casal espalhou-se pelo meio artístico e, em pouco tempo, Angel, que àquela altura ainda dava aulas de balé clássico na escola de Tatiana Leskova, abria uma turma na academia da dama do balé para adultos que queriam estudar expressão corporal.

O termo fora cunhado por Klauss, que certo dia, nos ensaios da Ópera dos três vinténs, comentou com a mulher sobre um ator que, segundo ele, tinha "uma expressão corporal muito bonita". Em pouco tempo eram mais de cem alunos. A academia de Tatiana não comportou o movimento e Angel, com Klauss e Tereza D'Aquino, fundou o Centro de Pesquisa Corporal Arte e Educação. Lá, Rainer Vianna, único filho do casal, desenvolvia o que aprendera com os pais para um trabalho que batizou de dança livre, baseada na expressividade natural de cada pessoa. Angel, que vê na parceria de vida e obra, com o marido e o filho, um outro triângulo a estabilizar sua trajetória, balançou um pouco com a perda de Klauss, em 1992, e de Rainer, morto em 1995, aos 37 anos. Mas foi fundo num projeto antigo, iniciado quando fundou com o filho, em 1993, o então Espaço Novo, atual Escola Angel Vianna. É lá que desde o início de 2001 funciona a Faculdade Angel Vianna, formadora de bailarinos e professores, um verdadeiro centro de estudos e pesquisas, como ela sempre desejou.

Angel controla a escola como mãe zelosa de suas crias. Conhece todos os alunos, sabe tudo o que acontece, desfaz desavenças com a mesma habilidade com que libera espaços entres ossos e músculos, com que ajuda a azeitar as dobradiças do corpo. Falante e afetuosa, ela fica essencialmente feliz com aquele movimento todo. "Adoro gente", diz a mestra. Gosto de ver as pessoas mudando, uma pessoa torta descobrindo seu eixo. O corpo é como uma máquina. Tem um fiozinho que o perpassa e vai fazendo as conexões. Cada pedacinho do corpo é pensante, tem uma resposta. E Angel Vianna, como boa aluna que foi de seus mestres, prefere, mais do que dar as respostas – e ela as conhece –, ajudar o aluno a descobrir o caminho, como a dizer, a cada osso e músculo tocados por suas mãos: "Cria. Descobre."

Entrevista especial à jornalista Nani Rubin para a revista Gesto.

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