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14.8.03

COISAS NOSSAS

Na semana passada, no DETRAN aqui da Vila Isabel, a vistoria e documentação 2003, foi feita em meia hora, e sem estresse como no ano passado quando implicaram até com o som da buzina do Abelardo -- meu carro. Documentação atualizada, fui dar um rolê pela área. No tempo de Noel, o local era uma estação de bondes da Light -- a pioneira linha de bondes que unia a Praça 7 ao Centro. A estação, um dos empreendimentos do fundador da Vila Isabel, o Barão de Drummond, mineiro de Itabira, e de quem descende o poeta Carlos Drummond.

Os sinais dos trilhos dos bondes ainda estão lá visíveis em alguns lugares, e a parte da estação também com aquela fileira de colunas que compõem a plataforma e o teto da estação ainda podem ser vistos na sua construção original. Em dezembro do ano passado teve uma grande festa no local quando o arquiteto Oscar Niemeyer foi homenageado. Na ocasião, ele entregou ao Martinho da Vila o seu presente para o bairro de Vila Isabel: o projeto arquitetônico da quadra de ensaios da Escola de Samba Vila Isabel.

Viajei no tempo, reportando-me à época do poeta da Vila, e fiquei imaginando o movimento de bondes com os seus motorneiros e condutores, os seus passageiros como a operária da fábrica de tecidos, o malandro, os seresteiros, os garçons impacientes, o guarda-noturno, o gerente impertinente, leiteiros, padeiros, vendedores ambulantes -- os prestamistas vigaristas -- que visitavam frequentemente o chalet modesto para cobrar as dívidas de Noel.

O menino Noel ia para o colégio, pegando carona de bonde. Espertamente pulava para o estribo do bonde parado no ponto. O bonde andando, e ele correndo pelo estribo, de balaustre em balaustre. Um dia, a sua mãe, Dona Martha de Medeiros Rosa o flagrou na arriscada acrocabacia. Para desespêro de sua mãe, havia ainda outro sério perigo: o de ser confundido com os moleques do bairro.

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Do bairro diz Noel, no seu diario:

Quando penso no Boulevard, nas ruas pacatas que guardam os meus melhores segredos, nas esquinas prediletas para a reunião da turma que aprendeu a fazer samba vendo sambar o arvoredo, o meu coração, incuràvelmente sentimental, bate descompassado como um tamborim tocado por estrangeiro. E eu vou alongando o pensamento e vou pensando que a cidade inteira é Vila Isabel...

(Trecho do diario de Noel retirado do livro NOEL ROSA -- UMA BIOGRAFIA. Autoria do jornalista João Máximo e do pesquisador e cantor Carlos Didier, o Caôla ex-integrante e fundador do Conjunto Coisas Nossas.
Esse livro consumiu de seus autores oito anos de extensa pesquisa. Um livro indispensável para quem se interessa pela música popular brasileira).

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