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7.11.04

40 espontâneos
Selecionei alguns espetáculos entre os destaques nacionais e internacionais do PANORAMA DE DANÇA/2004. Só conseguí ver três espetáculos. Hoje ví o espetáculo da La Ribot -- bailarina e performer espanhola radicada em Londres, "Os 40 expontâneos", com a participação de 40 cariocas sem experiencia de palco que trabalharam numa oficina com ela e seus assistentes durante uma semana. La Ribot diz lá no programa:
"estou interessada no significado dos expontâneos na linguagem das touradas, um expontâneo é o que rouba a cena dos toureiros quebrando as regras do jôgo e adicionando uma overdose de perigo desnecessária para essa celebração. (...) me interessa a transgressão ... o questionamento do que é arte".

O espectador, descalço, adentra o salão de ensaios do Centro Coreografico, e os "espontaneos" já estão espalhados pelo espaço cênico se movimentando e rindo, mas rindo muito, sem parar, até o final do espetáculo. E como inexiste um texto, o espectador que se vire para descobrir o motivo das risadas -- estas nem sempre muito espontâneas. Como o elenco não tem experiência nehuma de palco, arrisco-me a concluir que a inexperiência dos intérpretes deveria estar servindo à proposta cênica da Maria Ribot. Detalhe: o espetáculo não tem trilha sonora, nem iluminação especial - branca o tempo todo, e só no final aquele efeito conhecido, isto é a diminuição de luz lenta e gradual.
Como cenário, várias cadeiras de madeira clara e algumas poltronas colocadas aleatoriamente pelo salão, e, ocupando o centro, uma montanha de panos coloridos. O público foi se acomodando no chão, nas laterais, no espaço em volta das paredes, e uns poucos, (entre esses saidinhos, esta escriba) se arriscaram a sentar nas cadeiras. Algum tempo depois fomos retirados dali, e as cadeiras foram empilhadas, depois desempilhadas e usadas nas suas funções de cadeiras pelos "espontaneos".
Uma atividade lúdica?
Os espontaneos intérpretes -- sempre rindo muito -- movimentam-se em vários tempos pelo espaço cênico, com muitas quedas e rolamentos. Podem não ter experiência de palco, mas na sua maioria, pela expressão corporal dá para ver que são estudantes de dança. Os panos de várias cores e texturas diferentes vão sendo retirados daquele montão, e enrolados em vários partes do corpo, da cabeça aos pés dos "expontâneos", formando um figurino dos mais estranhos. Alguns panos vão sendo estendidos no chão como tapetes.
Comentário entreouvido durante o espetáculo "ah, entendí agora... é uma atividade lúdica!"
Com tanto pano colorido pelo chão, com a movimentação dos interpretes pelo espaço, parecia que estavamos assistindo uma grande atividade ludica, e dava vontade de interagir com a cena, deitar e rolar -- literalmente -- naqueles tapetes coloridos.Mas ao mesmo tempo, dava para sentir que o trabalho tinha uma estrutura fechada. Não dava espaço para esse tipo de interferencia. Ou será que eu fiz uma leitura errada da cena?
Um espontaneo rouba a cena dos "40 espontâneos"
Um jovem bailarino que não fazia parte da encenação, conseguiu interagir e roubar a cena, quebrando as regras do jôgo. Ou não. Quando uma das interpretes deitou no chão próximo dele, ele começou a interagir contando piadas para a moça que continuava impassível, mas as pessoas próximas começaram a rir muito, chamando a atenção para aquela cena, e daí eu corrí para aquele lado, e boa partedo publico também. A "espontanea" levantou dali, a cena acabou e o espontâneo rapaz foi aplaudido entusiasticamente.
Como você prefere morrer?
A performance continúa na mesma agitação, com algumas paradas para os abraços entre dois ou mais intèrpretes, e para interagir com o espectador, em vários momentos, fazendo uma pergunta que se constituía na única fala do espetáculo:Como você prefere morrer ? Assassinado? Doente ou Naturalmente?
No final, grandes papelões envolvem as cadeiras e os intérpretes deitam em silêncio e permanecem nessa posição até o final. Pretendo assisstir novamente, amanhã, porque eu quero entender qual é a desse trabalho da La Ribot apresentada aqui como um dos destaques internacionais. Considero-me uma pessoa bem informada, mas não tinha a menor referência dessa artista. Peut-être... voilà.

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