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15.11.04

Sem tempo, para acompanhar a programação do Panorama de Dança/2004, selecionei alguns poucos espetáculos. Além de La Ribot, assistí mais dois trabalhos performáticos de meia hora cada, no Teatro Carlos Gomes:

Transobjeto
na criação e interpretação do mineiro WAGNER SCHWARTZ. Numa miscelânea cultural, onde mistura tendencias e referências -- de Helio Oiticica e Lygia Clark a Pina Bausch, abre o espetáculo tendo como único figurino um parangolé do Helio e em uma das mãos segura um dos objetos relacionais de Lygia Clark.

Segue-se um ritual onde ele faz suco de frutas esmagando com as mãos entre outras frutas tropicais, abacaxis melancias, e vai bebendo a gororoba resultante no melhor estilo bufão, em muitos copos e taças cuidadosamente dispostos no chão. Desfila ainda pelo palco em variadas performances de referência à Carmen Miranda, e ainda completamente nu, desce até a platéia para pedir um cigarro.

Consegue um doador sentado no meio da terceira fila, e vai até lá apanhar o cigarro na mão do doador, esgueirando-se entre o exíguo espaço das poltronas dessa fila, e quasi encostando a sua genitalia na cara dos atônitos espectadores sentados nesse trajeto. Volta ao palco, e senta de costas para a platéia em frente a uma sombrinha de praia, e nessa posição vai fumando lentamente o cigarro doado, e assim termina a performance.

Nesse trabalho, deve-se ressaltar a coragem e a audácia desse mineiro que colocou muito próximo quasi encostando na cara do espectador, a sua genitália desnuda. O trabalho não correspondeu ao tamanho da ousadia.

O samba do crioulo doido
Na mesma noite, ainda no Carlos Gomes, outro trabalho solo com concepção, direção, interpretação, cenário e iluminação do veterano artista LUIZ DE ABREU, onde a bandeira nacional é o cenário e figurino. Mais de mil daquelas bandeirinhas de festas patrióticas decoram o espaço cênico, e duas ou três delas em alguns momentos servem de figurino, numa contundente crítica à imagem do corpo negro brasileiro, mostrando os estereótipos criados através da história como a mulata-exportação, etc.

O veterano bailarino dança nu, calçando apenas umas botas de cano alto, e dá um show de competencia no uso corporal dentro dos objetivos propostos pela sua performance, com a segurança de quem conhece o seu "métier". Os efeitos de iluminação do início, quando abre o espetáculo e ele adentra o palco, é realçada sòmente a sua silhueta no escuro, lembra a figura de um índio, e o som e a sua movimentação compassada causam um forte impacto visual e auditivo.

Esse início prometia muito desse trabalho, mas depois caiu na obviedade, na minha avaliação, mas o público que lotava o Teatro C. Gomes, aplaudiu de pé no final. Com ou sem obviedades, é um trabalho sério e consequente.

A dança do bilau no samba do crioulo doido
Em todos esses longos anos de militância artístico-cultural, eu nunca tinha visto tantos malabarismos de genitália como nesses dois trabalhos. Especialmente, no trabalho do Luiz de Abreu, a performance com aquele órgão do corpo humano, vulgarmente chamado bilau, é inacreditável.

Ora faz movimentos giratorios como se fosse uma pá de ventilador rodando no meio das suas pernas, e, em outra cena, na interpretação do travesti, pega o dito cujo, e, numa habilidade manual respeitável, com movimentos rápidos e certeiros vai embutindo e embutindo -- e bota embutido nisso, até o documento revelador masculino desaparecer por completo. Um espanto.

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