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18.10.07


Foto de Ariane Mnouchkine (créditos: site do Théatre du Soleil)

Anta fotografa
Anta que sou perdí a minha melhor foto do Soleil: Ariane carregando uma fileira de pratos e talheres no intervalo da peça. Ela estava ajudando a retirar os pratos e talheres das mesas. Quando me viu fotografando a cena, pousou dando até uma paradinha e um largo sorriso para para mim. Ao passar da digital para o computer. Cadê a foto? Que-sais-je? Voilà. Tenho que me conformar. Eu não merecí essa graça.

Trechos do encontro com o público - Théâtre du Soleil - 20 de outubro de 2006

Ariane Mnouchkine, a respeito de "Les Ephémères":


Primeiro dia

-(...) Sim, houve um primeiro dia (...)

Quis, confusamente, fazer um espetáculo que falasse dos salvadores... dos instantes salvadores. A gente não se mata o tempo todo, a gente se salva, apóia, cuida, educa também. Os seres humanos conseguem, apesar de tudo, viver juntos. Antes de falar com os atores, eu tinha me dado conta de que para fazer um espetáculo sobre a beleza dos homens e das mulheres era preciso que eu imaginasse seu desaparecimento. Foi com isso que começamos a trabalhar, com o desaparecimento próximo e certo de todos, de todos nós.

O tempo reencontrado

-(...) Acontece que estamos fazendo um espetáculo que fala de instantes... Do presente que já não é o presente no momento em que digo a palavra "presente". Talvez da beleza dos seres, da dificuldade que temos em apreender essa beleza, e quando, às vezes, nos damos conta do quanto esse instante era belo, puxa, ele já passou. É um espetáculo feito dos instantes que nos fizeram.

"A aposta da semelhança"

(...) Ás vezes nós mesmos não sabemos muito bem no que vai dar o espetáculo que estamos fazendo. O espetáculo é algo que a gente faz, é claro: a gente se levanta todas as manhãs para ir trabalhar durante longas horas. Mas o espetáculo também chega a nós em partes! Chega por meio de Shakespeare, de Sihanuk, de Gandhi ou de Nehru, de médicos desonestos que vendem sangue contaminado, ou de Tartufos, ou de refugiados, de imigrantes, que contam suas histórias. O que é difícil de confessar, às vezes de admitir, é que o espetáculo, que está chegando, chega por meio de "nós". E, portanto, de "vocês". De nossas semelhanças (...)

Esperamos que - ou temos certeza de que - os instantes que nos fizeram são muito próximos dos instantes que fizeram vocês. Que os lutos que vivemos, são muito próximos dos lutos que vocês viveram.

Que os abandonos que sofremos são próximos dos abandonos que vocês sofreram, e que nossos amores, nossas paixões, nossas esperanças, são também as de vocês (...) Trabalhamos a partir do concreto, evidentemente, o concreto de nossas vidas, o concreto de nossas mães, de nossos pais, de nossos avós, da ausência deles, dos momentos em que eles nos fizeram bem, e dos momentos em que nos fizeram mal. Dos momentos em que também nós lhes fizemos bem ou mal! A partir da fratria, da brutalidade que muitas vezes exercemos contra as crianças, a maior parte do tempo sem querer, às vezes querendo, infelizmente (...)

Edmond Jabès escreveu em Le Livre des ressemblances [O Livro das Semelhanças] que a aposta de Deus é aposta de semelhança. "A que eu me assemelho?" seria talvez a pergunta fundamental do Homem a Deus e a seu prosaico semelhante?.

A gente se faz essa pergunta incessantemente "a gente se parece"? E a aposta é "sim"! (...)

Na Desordem

-Onde se passa?

- Na França. Isso também é espantoso! Passa-se na França, na nossa casa, hoje, ainda que inegavelmente haja relatos, lembranças, visões, do passado. E é um espetáculo vivido por gente de hoje.

-Quem são les Éphémères?

-Os seres humanos! Somos nós "Les Ephémères".

-Há um texto escrito?

-Não.

-Há uma trama única?

-Não há trama única. É um espetáculo feito, como já disse, de aparições, de cada um dos atores, de nós, de todos, que se entrelaçam, que se tecem (...)

Penso que há um fio condutor. Mas quando ele se torna visível demais, transforma-se em amarra, em garrote. É preciso que esse fio, no trabalho, seja como um fio de teia de aranha (...)

Há uma unidade, mas não há roteiro, não há ligação. As visões dos atores são como uma coletânea: relacionadas, mas autônomas. Quando se lê uma coletânea de contos, quando do mesmo escritor, eles têm uma cor em comum, mas são autônomos, e a gente pode e deve lê-los como sendo contos distintos. São em si um começo, um meio e um fim (...)

Quando digo que não é roteirizado, não é mesmo, não há amarração, é como coisas que sobem à superfície (...) são camadas que se sucedem (...)

Onde está o teatro?

-Você fala muito de experiência, de concreto, de vivência, de transmissão, tem-se quase a impressão que se está unicamente no real. E o imaginário e o sonho dentro dele?

-Muitas vezes me fiz essas perguntas em determinado momento de nosso trabalho. Aliás, eu as tinha feito também quando de nosso espetáculo anterior "Le Dernier Caravanserail": o medo do real. "Atenção! Onde está a poesia, onde está o teatro?" Depois em acalmei. Não, trata-se de teatro. Mas com este espetáculo há uma relação com a precisão do instante vivido (vamos talvez dizer "vivido", em vez de "real") pois, afinal de contas, há no vivido uma parte, eu diria, de sonho, nem sempre, mas há, em todo caso, uma parte de imaginário, de fantasmático e de mitologia (...)

Somos dignos de ser heróis e heroínas de teatro? Também me fiz essa pergunta. Durante esse trabalho, às vezes, depois de uma improvisação particularmente forte, a gente se dizia "eu não sabia que era possível contar isso no teatro!" Era um instante extremamente real! Nós nos dissemos isso muitas vezes e ainda dizemos! "Eu não sabia que era possível contar isso, desse jeito, no teatro". Mas no teatro, veja bem. (...)
Fonte: Programa da peça editado pelo SESC-SP, especialmente para a temporada na futura unidade SESC-Belenzinho.

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