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24.8.09

Nunca percam o agora
Jorge Luis Borges, o maior escritor argentino, falecido em 1985, aos 86 anos, passa uma lição de vida, dando o seu recado em versos.
Quase ao fim da vida, o escritor ditou para a esposa-secretária um texto comovente. Uma espécie de reflexão de quem espera a morte com a consciência de um poeta que sabe que a vida, principalmente, se resume em pequenas coisas. Como o simples ato de andar descalço, contemplar a alvorada e brincar com as crianças.
Se pudesse viver de novo minha vida,
na próxima trataria de cometer erros.
Não tentaria ser tão perfeito, viveria mais frouxo.
Seria mais bobo do que fui;
de fato, levaria a sério só umas poucas coisas.
Seria menos higiênico.
Correria mais riscos, faria mais viagens,
contemplaria mais crepúsculos, escalaria mais montanhas,
nadaria em muitos rios.
Iria a mais lugares desconhecidos,
comeria mais sorvetes e menos vagens,
teria mais problemas reais e menos imaginários.
Fui uma pessoa dessas que viveu
sensata e pacificamente cada minuto
de sua vida; e é claro que tive momentos de alegria.
Mas, se pudesse voltar atrás, trataria de ter somente
bons momentos.
Pois, caso não saibam, disto é feita a vida, só
de momentos. Nunca percam o agora.
Eu era um desses que nunca vão a lugar algum sem um
termômetro, uma bolsa de água quente, um guarda-chuva
e um pára-quedas; se pudesse voltar a viver, viajaria
com menos peso.
Se pudesse voltar a viver, andaria descalço
desde o começo da primavera até o fim do outono.
Andaria de carrocinha, contemplaria mais
alvoradas e brincaria com as crianças, se tivesse
a vida pela frente.
Mas vejam, tenho 85 anos e sei que
estou morrendo.
Jorge Luis Borges

UPDATE: Sincronicidade é isso. Tinha postado esse poema do Borges que eu amo, quando pesquisando outro assunto, descobri por acaso que ele nasceu no dia 24 de agosto, justo a data desse post.
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