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11.5.11

AUTOENTREVISTA DE FERNANDO ARRABAL

“Há domadores de leões. Nenhum de lulas?

Um dos nomes mais importantes do teatro mundial, o dramaturgo espanhol Fernando Arrabal, 78 anos, fez a conferência de abertura do 6º Festival Palco Giratório Sesc-RS, no domingo passado, às 19h, no Teatro do Sesc (Alberto Bins, 665, entrada franca, com retirada de senha uma hora antes do início).
Radicado em Paris em 1955, Arrabal foi um dos dramaturgos enquadrados pelo crítico Martin Esslin sob a denominação de “teatro do absurdo”. Mas, como os demais, está além dos rótulos. Inspirado pelo surrealismo, foi um dos fundadores, em 1962, do Movimento Pânico (o nome faz referência ao deus Pã da mitologia grega). Trocou farpas com o diretor Gerald Thomas quando ambos participaram do ciclo de conferências Fronteiras do Pensamento, em Porto Alegre, em 2008.
– Esse sujeito só fez uma peça. E copiada – disse Thomas.
O espanhol não deixou por menos:
– Não o conheço, nunca ouvi falar dele.
Arrabal aceitou conceder a seguinte entrevista por e-mail. A reportagem foi avisada que ele costuma reescrever perguntas. Dito e feito: o dramaturgo criou uma “autoentrevista”. Confira, a seguir, Arrabal por Arrabal:



Fernando Arrabal – Onde está a vanguarda na arte?
Fernando Arrabal – Quando a solteirice é cada vez mais hereditária?

Arrabal – O mundo perdeu toda a direção?
Arrabal – E parou de ser masoquista. Gozava demais.

Arrabal – A asfixia intelectual e o conformismo levam ao entorpecimento cerebral?
Arrabal – Diríamos coisas interessantes se disséssemos o contrário do que pensamos?

Arrabal – O desterrado/exilado respira melhor na França?
Arrabal – Ainda não aprendi que a elipse existe.

Arrabal –Você se considera um apátrida ou um patriota do Desterro?
Arrabal – Ao fim de seis dias Deus criou a bandeira e descansou.


Arrabal – Paris é o local onde gostaria de morrer? Você voltou a nascer aí, como Frankenstein, já crescidinho?
Arrabal – Tempo incerto. Espaço Indeterminado – As ideias só podem ser ambíguas


Arrabal – Como é possível que depois de quase sessenta anos morando na França você ainda conserve suas manias de estrangeiro desterrado?
Arrabal – Toda formosura dorme?


Arrabal – Seu sotaque não é castelhano, como Borges dizia?
Arrabal – Todos são puro pleonasmo?


Arrabal – Continua pensando que nunca será um escritor de ofício?
Arrabal – Paradoxo: referir-se com realismo à utopia, com ódio ao amor e com gravidade ao humor.


Arrabal – Você se classifica no personagem que habita?
Arrabal – Nem sua circunstância molda a manicure apaixonada pela Vênus de Milo?


Arrabal – Por que imagino que antes de ir dormir, quando se olha no espelho, você não vê o mesmo Fernando Arrabal que o resto do mundo vê?
Arrabal – Os camicases põem capacete antes da missão suicida.


Arrabal – Quanto de Hamlet, quanto de Quixote e quanto de Patafísica há em Arrabal?
Arrabal – Jarry era mais erudito que Shakespeare ou Cervantes, obviamente. Mas igualmente homossexual.


Arrabal – Alguma vez já se sentiu usado? Você acha que de alguma forma já foi possível instrumentalizá-lo em algum momento de sua vida?
Arrabal – Escrevo com duplo sentido para chegar à metade?


Arrabal – O mais sério é rir-se de si mesmo?
Arrabal – Presunçoso como o falcão que tenta passar por trás da Lua.


Arrabal – E o mais triste? Levar-se a sério?
Arrabal – Há domadores de leões. Nenhum de lulas?


Arrabal – Quantas vezes por dia você mata Deus?
Arrabal – Piolhos majestosos. Místicos da decadência?


Arrabal – Como anda sua memória histórica?
Arrabal – Perdi a esperança – Evitando a angústia?


Arrabal – Sente rancor de Franco?
Arrabal – Os buracos são cheios de buracos?


Arrabal – É casualidade ou uma piada do destino que o carrasco de seu pai tivesse o sobrenome igual ao de seu amigo e de Houellebecq, Beigbeder?
Arrabal – A História joga cara ou coroa?


Arrabal – A experiência o ensinou a desconfiar dos aduladores?
Arrabal – O terráqueo se alimenta de seus terrores?


Arrabal – Alguma vez parou para contar quantas pessoas se dedicam a forjar sua identidade nas chamadas redes sociais?
Arrabal – Os quadros estão presos nos museus?


Arrabal – Que tipo de vida miserável pode ter um indivíduo que finge ser quem não é para ter amigos e ganhar e um afeto que não lhe correspondem?
Arrabal – É possível retirar presunto das bolotas sem passar pelo porco?


Arrabal – Crê que o temam nas academias do poder cultural?
Arrabal – Há quem corra atrás da arte: aposto na arte.


Arrabal – Por falar em redes, Facebook, Twitter...
Arrabal – Preservativos serão vendidos com seu certificado de antecedentes penais?


Arrabal – O que lhe dá mais vergonha nesta vida?
Arrabal – Apunhalar com a chama de uma vela.


Arrabal – E o que lhe inspira compaixão?
Arrabal – Os homens de letras mortas.


Arrabal – Você se aborrece que sempre façamos perguntas parecidas?
Arrabal – Gostaria que viessem com croquetes de felpas


Arrabal – E que me diz do tom acadêmico?
Arrabal – Filosofar é diurético?


Arrabal – O que fará com o naco de celebridade com que esta entrevista o brindará?
Arrabal – Quando não penso no que digo, digo o que penso... Como todos.


Arrabal – Esta é a pior entrevista que já lhe fizeram?
Arrabal – Já Eva preferiu Adão ao Éden.

Fonte: Jornal Zero Hora de Porto Alegre- Caderno CULTURA online, 30/04/2011

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