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4.11.06



Fotos do Antunes Filho no final do debate. Cliquei o pulo final, na foto aí em cima.
Momentos Decisivos do Teatro Brasileiro
Uma série de debates "Momentos decisivos do teatro brasileiro" aconteceu no CCBB do Rio, durante todas terças feiras de outubro. Um momento decisivo foi relembrado, analisado por personalidades que o vivenciaram. Barbara Heliodora falou sobre Vestido de Noiva; Nicette Bruno falou de Dulcina; Walmor Chagas do TBC; o Boal do Arena e Oficina; Antunes Filho de Macunaíma e encerrando os cinco encontros, o Hamilton Vaz Pereira falando do Asdrubal e a Influência no Teatro Contemporâneo. Só assistí aos dois últimos.

A performace corporal e vocal de Antunes Filho

E com vocês o maior diretor do mundo, assim foi anunciado pelo mediador do debate, a entrada do diretor Antunes Filho, no palco do Teatro I do CCBB. Contrariando a expectativa, ele desceu e se colocou de costas para o palco, em pé no corredor entre a primeira fila da platéia e o palco, por onde circulou muito á vontade durante quase duas horas.

O público que superlotava o Teatro I do CCBB assistiu uma surpreendamental performance corporal e vocal do diretor de Macunaíma. E a platéia, composta na sua maioria por jovens, atores e estudantes de teatro, e alguns atores nem tão jovens, (gente que eu não via há um tempão), intelectuais e mais o público curioso que circula pelo CCBB.

Nesse tempo que durou o debate, ele conseguiu reduzir idéias altamente sofisticadas das suas pesquisas no CPT aos termos mais cotidianos, utilizando outras referencias de comunicação, com o auxílio de sua expressão corporal e vocal, como giros de corpo, torções, saltos, pulos alternados com vozes e gestuais inusitados.

Intelectuais presentes, como a diretora teatral Ana Maria Taborda e a atriz e antropologa Solange Padilha preocupadas com o bom entendimento das idéias colocadas assim, digamos de forma tão inusitada, pedem um aparte, complementando a explanação do diretor. E entre agradecido e divertido, ele diz: mas é isso... isso mesmo, muito obrigado. E continúa no mesmo tom. Quem entendeu, entendeu. E quem não entendeu, entendesse...

Falando sobre a sua técnica de ressonância, ele diz: A ressonancia não deu certo nesse País por causa do trabalho de corpo e mais as condições teóricas que exige, e a seguir ilustra a sua teoria da ressoncia com movimentos do tronco e emite sons próximos aos de uma galinha cacarejando, entre outros sons muito estranhos.

Um ator, um clown, um bufão, tudo ali ao mesmo tempo agora.

E a performance continúa com muitas divagaçõses sobre espaço e tempo cósmico: O tempo é um só. O dia de ontem talvez seja amanhã. Será que eu lembrarei de mim daqui há 3000 anos?
Esse relogio aqui (apontando para o seu relógio) eu uso no tempo que eu quiser, onde eu quiser.
Encarnar um personagem é caso clínico. Tudo está lá dentro. Você é o todo. Nós somos uno. Eu represento o Bush eu não sou o Bush, embora no fundo eu seja também um pouco do Bush em outra dimensão.


Outras inesperadas peformances, mais divagações e uma demonstração prática sobre a teoria da realidade desdobrada. Pegou uma colherzinha de pau e pingou uma gota de um líquido e colocou num recipiente pequeno e girou, girou e girou para um lado, e depois voltou a girar muitas vezes em sentido contrario, voltando à posição inicial, diz enfático: Isto é a realidade desdobrada. Todas as dimensões devem estar aqui.
E a platéia boquiabrindo e boquifechando, como diria o Milor, num mixto de espanto e admiração.
O que me assusta é a alienação de todos nós. Vivemos alienados do nosso verdadeiro eu que é o todo.

Dito isso, dá por encerrado o debate, e finaliza com mais pulos, saltos, giros e contorções, e, mudando o tom de voz e a expressão corporal, pergunta com a maior singeleza: Será que eu correspondí pra vocês?. É aplaudido de pé.

Nem só de aplausos...
Nunca tinha assistido nenhum debate, aula, conferencia ou coisa que o valha do diretor Antunes Filho. A única vez que eu o ví em público, foi final dos anos 80 numa entrega do Prêmio Mabembe, em São Paulo, quando ele foi vaiado pela classe teatral ao receber o prêmio, mas subiu e desceu do palco abaixo de vaias e xingamentos como se nada de anormal estivesse acontecendo. Foi demais.
Antunes, para mim, está entre os cinco melhores diretores do mundo, ao lado dePeter Brook, Ariane Mnouchkine, Peter Stein e Bob Wilson. Já postei sobre isso aqui nesse blog.
Mas depois desse debate, eu não sei dizer se eu gostaria de trabalhar com ele. Eu não sei se eu sobreviveria nessa utopia (até rimou! rs)

Antunes Filho e Macunaíma
Macunaima mudou a vida do diretor Antunes Filho, vindo do TBC, onde trabalhou como assistente de direção de Ziembinski e Adolfo Celi. Macunaíma foi a primeira grande ruptura na carreira do diretor, até então com uma bem sucedida trajetoria no teatro comercial, seus atores eram premiados Eva Vilma e Raul Cortez, entre outros. E o Manuel Carlos (o autor de Paginas da Vida) também trabalhou com Antunes na sua época de teatro amador.
Um dia percebí que o teatro comercial era bom, mas não me satisfazia espiritualmente. Então eu disse: Basta! Vou fazer outra coisa, vou me dedicar aos jovens, quero um teatro que valha a pena, que tenha um sentido espiritual. Tudo o que eu estava fazendo não tinha nenhuma coerência. Era bom, mas não era isso.Foi aí que começou Macunaíma, lembra Antunes no programa do CCBB.

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