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2.9.03

O Fantasma da Ópera

Agradeço àqueles que me aplaudiram (e não foram poucos). Na última récita então foi uma loucura. Os aplausos eram fervorosos e vinham em forma de braços para cima. Daquele palco enxerga-se tudo. Mas enxerga-se as vaias também.

Sempre deixei claro que gosto delas, das vaias. Quem tem memória (e idade para isso) pode tentar voltar ao Navio fantasma. Foram (acho) 16 minutos de lindas vaias. Mas dessa vez foi uma coisa corrosiva, organizada por um bando dissidente de uma organização séria, a Sociedade Wagneriana do Brasil. Vou deixar bem claro. Aqui existe um senhor discreto, que não faz nenhuma questão de aparecer, de fazer barulho, e que representa com toda dignidade essa instituição. Esse senhor se chama Carlos Rauscher.

Por outro lado, existe um grupo de bandalheiros, daqueles que se levantam em qualquer palestra e começam a berrar em nome próprio, fazem anúncio de si mesmos e não falam coisa com coisa. Foram eles os autores das vaias criminosas, recheadas de frases que me levaram ao ato BRINCALHÃO de tirar as calcas e mostrar a bunda. Aliás, não entendo... a imprensa carioca enlouqueceu ou desaprendeu o português? O que mais li durante a semana retrasada foi a palavra derrière. Somos mesmo um povo colonizado, só que por Lisboa, lá é que se fala francês. Deus me livre.

Pois é, a brincadeira deu em processo criminal porque algum secretário de Estado ou delegado (que sequer esteve lá) quis se promover. Será? De qualquer maneira, só posso sair dessa um pouco ferido e, ao mesmo tempo, de alma lavada pelos lindíssimos artigos de Zuenir Ventura, de Arnaldo Bloch, de Cacá Diegues, de Ziraldo, de Antonio Quinet e da Tribuna da Imprensa. Não foi fácil - nem para mim e nem para a minha advogada, dra. Leilah Borges da Costa - enfrentar aquela coisa kafkiana toda. Afinal, o Rio exporta bundas no Carnaval e o ano inteiro nas praias. Recusei-me a aceitar aquilo como crime (mesmo sendo o custo um ou dois salários mínimos) por uma questão de princípios: eu estaria abrindo precedentes perigosos. Artistas daqui em diante teriam que temer qualquer ato em seus teatros. O que seria isso? Censura?

Censura, sim. Passei por várias. Aliás, da minha ''grande amiga'' Helena Severo, a última vez em que ouvi a sua voz foi no táxi a caminho da gravação do Jô Soares. Ela devia estar com medo do que eu pudesse revelar ali. Desde então, nenhum alô, nenhum interesse em saber como havia sido lá no tribunal. São as tais ''amizades por interesse'' que rolam nesse mundo político.

Tenho me perguntado por que me chamaram para dirigir essa ópera. Todos sabem exatamente quem sou e o que faço. Minha reputação transcende fronteiras. E sabem exatamente que meu conceito e comportamento geram polêmica. Se não querem isso, por que me convidam?

Ao mesmo tempo, quando isso vira notícia, lota teatro. Todos conhecem a mídia e não se façam de tolos! Montei a mesma ópera em Weimar, sem censura alguma e com pouca polêmica. Mas com um nível de qualidade musical... E com um maestro (George Aldrecht) que realmente trocava figurinhas comigo, que sentava e discutia os pormenores de cada ária, as ênfases musicais e dramatúrgicas. Aqui, achei ter um companheiro, que, até o dia anterior à estréia, comemorou comigo no Gero (eu paguei a conta, claro), mas que só batia na mesma tecla ''sigo rigidamente a partitura do maestro Karl Böhm''. Traduzido para a encenação, seria como se eu dissesse ''vou encenar rigidamente o conceito de Hans Neunfels de 1973''. Ora, que cretinice. A História vai para frente e não para trás.

A não ser no Municipal. Lá os cabos rompem, o palco cai. Os departamentos não se comunicam, as pessoas não se ouvem e quem merece ser ouvido parece que teve sua boca calada. São coisas que não entendo.

O coro do Municipal está profundamente descontente. Estou solidário com ele. Vejam bem, já dirigi 19 óperas pelos palcos mundo afora. Só três foram aqui no Brasil. Nunca ouvi falar que não se pode usar gente do coro como solista. Mas isso virou lei lá dentro e ninguém quer discutir. Ciro Pereira, que está ali dentro há décadas, faz parte da história daquele teatro. Mas não o ouvem. E assim é. Querem conduzir aquilo com braço de ferro. Mas braço de ferro, assim como favores políticos, como todos sabemos, são coisas medíocres e que caem, seja pela corrosão da ferrugem ou pela ganância, gula e todos os outros pecados capitais.

Gerald Thomas
Jornal do Brasil
02/set/2003


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